terça-feira, 29 de março de 2011

Alegria, alegria..

Quando você leu o título desde post, qual foi a primeira coisa que veio à sua cabeça ? Sabe quando uma expressão se casa com uma pessoa?  “O que que há velinho?”, “Nunca na história desse país”, “It´s gonna be legen, wait for it, dary”, “Bazzinga”. Eis os exemplos. Não preciso citar nomes e você já sabe quem são.
Pois bem. Na noite de terça, assisti a um documentário e descobri que a expressão “Alegria, alegria”, está órfã.  Embora o dono destas aspas já tenha falecido, não é por isso que ela está órfã.
O documentário que assisti foi “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”.  Segundo Carlos Miele, Simonal foi o maior cantor deste país. Vê-lo cantar Shadow of your smile com Sara Vaughn me fez pensar assim por um minuto. 
A primeira música dele que ouvi foi “Carango”. Achei real,palpável, debochado, malandro, um pouco confiante demais, manja? Como se a qualquer momento a história do carango fosse sofrer uma reviravolta..
 E Simonal era tudo isso e foi mais ou menos isso que aconteceu. Quem conhece a história do contador que apanhou pacas, e de como isso fez do cantor, um delator, informante do DOPS em plena ditadura militar, pode até ter um outra opinião sobre o que de fato aconteceu. E quem sabe até mais informações do que eu, e num golpe de sorte pode não ter sido influenciado pelo documentário como eu neste momento.
Mas, eis minha lamentação.  Me impressionei com a aparente injustiça que a imprensa  e a classe de artistas da época, tenha feito com o cara. Vou ressaltar que não acho certo que ele tenha mandado bater no contador. E menos ainda que tenha envolvido o DOPS na coça que o funcionário levaria. Acho que ele foi ingênuo nos capítulos seguintes. Mas isso não nega o fato de que foi abandonado pela classe e pela imprensa.
         Em 2000 eu tinha dez anos. E não me lembro de ter ouvido falar da morte de Simonal. O depoimento da esposa de Simonal no documentário me tocou muito. “Ele ainda era um fantasma”. 
      O que mais me irrita é que a carreira de Wilson Simonal não teve um fim. 
Jair Rodrigues por exemplo, não é mais o parceiro de Elis que agitava os Festivais, mas vez em quando aparece na mídia, feliz com a história que criou e com a trajetória que os filhos vem criando.
Diz o documentário, que Simonal se tornou persona non grata na mídia já que a imagem dele estava muito ligada a ditadura. E conta, a segunda esposa dele, que Simona chegou a assistir aos shows dos filhos escondido, pra não prejudicar a imagem deles.
 Que medo é esse de trazer a ditadura à tona?  Fingir que Simonal não existia mais, era fingir que a ditadura não aconteceu. Não to falando que ele era de direita ou esquerda, mas ter a imagem ligada à ditadura não é argumento para mim. Por que ninguém teve a misericórdia de esclarecer a história de um cantor como Simonal?  Quando eu penso na postura da imprensa marrom, e no abandono dos artistas da época, o trecho “o show de todo artista tem que continuar” parece até deboche.
Simonal morreu com o desgosto de ter deixado a carreira em aberto.. brutalmente interrompida por uma burrice dele, um abandono dos colegas, e uma absurda condenação da imprensa.
(Peço licença pra reproduzir de várias expressões do documentário). “Alegria, alegria”, dita em “tom de deboche” por um “enterteiner” que fez Sergio Mendes pensar duas vezes antes de entrar no palco, encabulado por suceder o cantor de faixa na cabeça, era pra ser uma expressão que falasse de Simonal e tudo que ele representa.
Lamento que a “alegria” esteja órfã, e que o dono tenha ido embora sem ela. 


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